O gatilho fácil como política de estado.
Villa Torres, Curitiba, Paraná, Brasil
07/03/2022
O estado neoliberal,
para tornar regular os interesses da classe dominante (burguesia)
e de suas classes auxiliares (burocracia estatal, partidária, sindical
etc.), deve necessariamente promover uma maior exploração do trabalho
(menos salários, maiores dificuldades de sobrevivência), mais desemprego,
bem como uma maior apropriação da renda estatal. Como consequência dessa
regularização neoliberal, diversas classes desprivilegiadas (operários,
serviçais, marginalizados etc.) precisam sobreviver em condições de extrema
pobreza, quer dizer, trabalhos precários, moradias precárias, subemprego,
alcoolismo, drogas, tráfico de drogas, delitos, violência social, repressão
estatal (policial) intensa etc.
Em Curitiba (Brasil)
não é diferente. A regularização neoliberal na cidade, assim como em Chicago
(EEUU) ou em Buenos Aires (ARG), vem combatendo os pobres, e não a
pobreza. Aqui a repressão estatal (policial) vem se ampliando, seja em
sua modalidade contrainsurgente (seletiva), como aquela aplicada contra
professores, pais, alunos/as e outros manifestantes no Massacre do Centro
Cívico (29/04/2015), seja em sua modalidade preventiva, aplicada
cotidianamente nos bairros pobres da cidade e sua região metropolitana.
Para se ter uma ideia
de tamanha ampliação, de 2010 para 2020, o número de assassinatos em razão da repressão
estatal letal (gatillo fácil), no país, saltou de 2.434 para 6.416.
Se somados os anos desde 2010 até 2020, temos um total de quase 44 mil casos de
gatilho fácil para o país. Um recorte estadual para o Paraná demonstra que em
2010 foram 119 casos, para em 2020 chegar-se ao número de 373. Se somados os
casos do mesmo período, somente para o estado paranaense temos a soma de pouco
menos de 2,6 mil casos. Em 2020, esse número representava cerca de 12% das
cerca de 50 mil mortes violentas que ocorreram em todo o país, por crimes que
envolvem homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte.
No município de Curitiba, onde se viu a existência de 265 homicídios no ano de
2020, neste mesmo ano a polícia matou 101 pessoas, sendo responsável por grande
parcela dos assassinatos. São números realmente espantosos que reforçam a
argumentação acima e situam o gravíssimo quadro de repressão estatal letal
brasileiro. Ontem, mais uma vez, os moradores da Villa Torres, primeira favela
da cidade e, por conseguinte, região predileta da repressão estatal preventiva,
foram vítimas da política do gatillo fácil (execução policial sumária).
Durante uma abordagem
policial no final da tarde, um jovem de 25 anos foi executado pela polícia
militar estadual/PM. E não há nada de novo na forma como a repressão
preventiva ocorre, bem como no discurso estatal (polícia militar – PM) e
do capital comunicacional para justificar a execução policial:
atitude suspeita, enfrentamento, legítima defesa policial, blá blá blá. É assim
em quase todos os casos de gatilho fácil, pois o próprio inquérito policial
(fase investigativa) já nasce para legitimar a execução e arquivar os casos
com respaldo de toda instituição estatal (polícia e judiciário).
E por saber que a repressão estatal
preventiva letal é uma política de estado (política neoliberal) e
não uma atitude isolada de um policial (loquito suelto) é que o Coletivo
Antirrepressão Estatal (COARE), com forte influência dos companheiros da
CORREPI, nasceu na cidade de Curitiba, com o propósito de denunciar a repressão
estatal policial e organizar a luta antirrepressiva que, para nós, só faz
sentido se for uma luta verdadeiramente anticapitalista e antiestatal.
“Não se trata de um
policial, mas sim de toda a instituição [..] Basta de capitalismo, basta de
gatilho fácil”
COLETIVO ANTIRREPRESÃO ESTATAL/ COARE - Curitiba, Brasil